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2007-10-27

Negro Coração (Aparecida Machado)

Negro Coração.

O vento já soprava forte, quando ao longe ouvia-se nitidamente o trovejar... Os relâmpagos cortavam de formas esplêndidas o céu cinza de núvens escuras, acima desse imenso oceano.
Eu... Inerte... Permanecia sentada na areia, sentindo o vento e as águas salgadas do mar a tocarem, vagarosamente a ponta de meus pés, chegando também a molhar as barras desse meu longo vestido negro... Negro como meus cabelos... Negro como meus olhos... Negro como meus sentimentos lúgubres, lívidos e gélidos...
Assim continuava o fim de tarde, logo chegaria o crepúsculo e com ele a noite, tempestuosa...
Que eu presságiava ser uma noite augusta, prateada com sua névoa púrpura de luar, no seu curso misterioso, guardando no seio agonias de delíquios, soluços de desespero e gritos de paixão... Que não passaram de presságios... Apenas e vagos presságios de amores... Ah!... Esses amores... Amores esses que acabam sempre por não terem base a amizade e o respeito, e acabam dissolvendo-se em ódio e rancor. Amores esses, filhos do casamento entre o desejo e a ilusão, vivem como falenas a vida efêmera dos pais. O primeiro a morrer é o desejo; a ilusão pouco lhe sobrevive, e ante os dois cadáveres brancos e frios, amortalhados em vermelhas rosas murchas e em lírios fanados, os pobres amores arrastam-se ainda por algum tempo e por fim, expiram; para ressucitar e reviver em lembranças e na saudade...
E saudade é o que nem resta nesse coração negro... Lembranças, algumas... Vagas, como vislumbres... Nada mais existe... Além do instante em que vejo este oceano, esta tempestade... E nesse mesmo instante, sou igual a uma folha seca que o vento frio do final de um outono, começo de inverno, derruba... Quando cái... Desfalecendo... E ao chegar ao chão... Morta já esta.
Assim estava eu, inerte, jogada ao chão da praia, recebendo toda a chuva que poderia cair aquela noite... De compainha a solidão... De amor a perdição... De ódio a paixão... De frio a escuridão... Era assim que tudo sentia esse negro coração.


Aparecida Machado.

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